10 de janeiro de 2018 às 07:02

Dorsal Atlântica relembra a tragédia de Canudos em excelente álbum

Marcelo Moreira

Politicamente incorreto, incômodo, dando voz a quem nunca (ou quase nunca) a teve nas discussões históricas e políticas. Um projeto arrojado e arriscado – mas com chances imensas, contraditoriamente, de dar certo por levar o mítico nome da banda carioca Dorsal Atlântica.

Carlos “Vândalo” Lopes já tinha dado pistas de que viria algo grandioso em relação àquele que seria o próximo trabalho da banda. Em entrevista ao programa de web rádio Combate Rock, empolgou-se ao falar de uma obra que “reproduziria um tema histórico com grandes conexões com os tempos atuais, em muitos sentidos”.

“Canudos”, o recém-lançado álbum da Dorsal, gerou muita expectativa e o cantor, guitarrista e líder do grupo entregou o que prometeu: um dos melhores álbuns de rock brasileiro de 2017.

Depois de anos de luta e de um hiato longo, Lopes e a banda capricharam em um trabalho denso e intenso, com altas doses de paixão, o trabalho recém-lançado é o ápice de uma carreira de quase 35 anos e, criativamente, a síntese do poder de fogo de artistas experientes e talentosos.

Com base no tema da famosa Guerra de Canudos, que movimentou a política brasileira há 120 anos, a Dorsal Atlântica criou um painel onde passado e presente se misturam no desespero, na contradição, na traição e na corrupção.

Ativista político, Carlos Lopes, além de músico artista plástico, também é professor e um ativo militante de causas sociais. Se politicamente ele  mostrou certa desesperança e cinismo, quando faz arte não economiza no engajamento e nas cores que defende.

A saga do criminoso/arruaceiro/líder espiritual (dependendo do ponto de vista) Antonio Conselheiro é contada de forma cronológica e poética, mas com um olhar de quem participou do lado de quem deveria ser massacrado, mas que ousou resistir e lutar por liberdade.

Para Lopes, autor de todas as letras e músicas, a Guerra de Canudos, entre 1896 e 1897, extrapolou a conflagração interna com características de guerra civil. Tratou-se também de um confronto de ideias e pensamentos, onde o autoritário poder central da recém-instaurada República foi confrontado por um discurso libertário.

Dorsal Atlântica (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Loucura e resistência

Não há dúvidas de que esse caráter estava presente, mas é fato que o peregrino Antonio Conselheiro era um fanático religioso com ideias exóticas – adorava em falar sobre o iminente fim do mundo e sobre as forças do mal representadas pela República.

Só que também foi um líder carismático e extremamente esperto ao perceber as fragilidades de uma população paupérrima e abandonada no interior do Nordeste, sempre à espera de uma salvação da seca inclemente e da exclusão socioeconômica.

O pacote estava completo: carência espiritual, abandono político, ausência de Estado, fome e pobreza extremas. Conselheiro e seu carisma prometeram tudo e mais um pouco, reunindo uma multidão de desvalidos em Canudos, no interior da Bahia, onde prometia a salvação, entre outras coisas.

Para quem não tinha nada e menos ainda, Conselheiro era a única tábua em que se podia agarrar; para os fazendeiros e a elite local, era um perigoso agitador social que queria esgarçar o status quo e promover revoltas; para a Igreja Católica, era um desordeiro que ousava questionar o poder de Deus; para o poder central, no Rio de Janeiro e em Salvador, era um líder político que contestava a República e a frágil ordem política; para muitos outros, não passava de um oportunista covarde e aproveitador.

Se ainda existem divergências sobre o caráter do movimento, não se pode fechar os olhos para a tenacidade e o poder de resistência dos sertanejos que abraçaram Conselheiro e sua pregação.

O Exército brasileiro decidiu intervir e três expedições despreparadas e mal armadas foram enviadas para desbaratar o bando de fanáticos, mas foram derrotadas de forma humilhante.

E, como sempre acontece em eventos semelhantes, o poder central autoritário reuniu um efetivo de verdade e reforçado para enfrentar o que parecia ser uma guerrilha fortemente armada e que “ameaçava” a República.

O saldo da quarta e última expedição foi o maior massacre civil de nossa história, com a destruição total de Canudos e assassinados em massa em escala nunca vista por aqui. Não há números registrados, mas fala-se entre 10 mil e 20 mil civis mortos, além de 5 mil baixas entre os militares. Conselheiro morreu antes do combate final, vitimado por uma série de enfermidades que lhe causaram disenteria e febre.

Carlos ‘Vândalo’ Lopes (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Um olhar diferente

“Canudos” é uma ópera-metal competente e bem feita, com viés político claramente contestatório das versões oficiais sobre o “demônio” conselheiro.

Musicalmente, traz Carlos Lopes furioso e visceral, em um thrash metal vigoroso que resvala quase sempre no hardcore. A voz do músico está diferente, o que não afeta o resultado final.

As guitarras contundentes e o baixo na cara se misturam com arranjos poderosos que valorizam o peso, mas que deixam espaço para os ingredientes de música regional.

De forma habilidosa, Lopes tece camadas instrumentais de forma a compor uma trilha sonora de horror e tensão. O melhor exemplo é “O Minutos Antes da Batalha”, onde é possível perceber os detalhes de uma canção composta por um pesquisador minucioso e com traquejo para forjar imagens mesmo debaixo de uma avalanche sonora.

“Belo Monte”, o cartão de visitas, é uma explosão sonora onde a proposta é escancara, com guitarras altas e bem trabalhadas, que estraçalham depois de um arranjo sensacional de música regional.

“A Conselheira” e “Sonho Acabado” se destacam por dar a dimensão humana da tragédia baiana, enquanto que “Grava Vermelha” e “Liberdade” mostram o caráter político, com uma urgência assustadora e muita intensidade. O viés crítico aparece na ironia raivosa de “Ordem e Progresso”, que encerra o trabalho.

“Canudos” é uma ópera-metal condensada em 40 minutos de porrada sonora e um tapa na cara das versões oficiais de fatos históricos contados em versões unilaterais.

Não é a verdade absoluta a versão da Dorsal Atlântica, mas a obra cumpre a sua função não só de mostrar um outro lado de uma história trágica e horripilante, mas também de capturar o ouvinte para ouça e compreenda a história.

O monumental trabalho, composto inteiramente por Lopes (que também foi o responsável pela brilhante arte que envolve a obra) remete a outras do mesmo esquema realizada por bandas como Iced Earth (EUA), Sabaton (Suécia) e as brasileiras Armahda, Arandu Arankuê e Tupi Nambha, entre outras.

A diferença é que qualidade das letras é muito acima da média, o que provavelmente coloca “Canudos” como o melhor trabalho já feito pela Dorsal Atlântica.

Fonte: UOL

comentários

Estúdio Ao Vivo