10 de maio de 2018 às 06:50

The Who ao vivo, no começo da fúria, finalmente chega ao mercado

Marcelo Moreira

O empresário musical inglês Kit Lambert costumava dizer que é difícil dizer quando uma banda de rock começa a morrer – às vezes dez anos antes de seu efetivo fim. No entanto, na maioria das vezes é fácil determinar quando uma delas se torna uma banda de verdade.

Para The Who, sua cliente, ele não tinha dúvidas: o quarteto virou grande na turnê norte-americana de 1968, mas precisamente nos dias 5 e 6 de abril, em Nova York.

Foi quando o grupo fez dois memoráveis concertos no Fillmore East, a “filial” do leste do aclamado Fillmore Wast, de San Francisco, criada pelo genial e genioso Bill Graham.

O melhor dos dois shows, o do dia 6, finalmente foi lançado em CD neste mês de abril nos Estados Unidos e na Inglaterra – ainda não há previsão de lançamento no Brasil.

“The Who – Fillmore East 1968” é um terremoto sonoro, o começo da trajetória que marcaria a banda como um dos gigantes dos anos 70 (ao lado de Led Zeppelin, Rolling Stones e Faces, na primeira metade da década), em um ápice que seria atingido em fevereiro de 1970 com uma série de concertos na Inglaterra, sendo que um deles, o realizado na Universidade de Leeds, se tornaria um dos mais elogiados e citados álbuns vivo de rock de todos os tempos.

A realização dos dois shows teve momentos épicos e de muita coragem e sangue frio. Era uma sexta-feira pesada, com um climão em todo os Estados Unidos e, ainda por cima, com uma carga de cansaço monumental por conta da uma turnê já no final, mas bem-sucedida.

Os quatro moleques ingleses, em sua segunda grande turnê norte-americana, ainda curtiam a estrada e estavam eufóricos com a aceitação de suas músicas e o seu jeito anárquico de tocar – seguindo a tendência, os shows ficaram mais pesados, em uma concorrência direta com Jimi Hendrix Experience, Cream e Jeff Beck Group.

E eis então que veio a bomba: Martin Luther King, grande ativista negro dos direitos civis, tinha sido assassinado naquela sexta-feira, 4 de abril de 1968, em Memphis, no Tennessee. Era o começo de uma noite interminável, de distúrbios em todo o país.

Os quatro integrantes do Who tinham acabado de chegar a Nova York para dois shows esgotos nos Fillmore East, nos dias 5 e 6 de abril, sábado e domingo. Deveriam ser a coroação do sucesso do giro norte-americano.

Por quase 20 horas a realização dos dois concertos esteve perto do cancelamento. Os quatro estavam assustados, receosos de que os tumultos continuassem e que pelo menos o show de sábado sucumbisse à violência.

No entanto, o guitarrista Pete Townshend ponderou e e decidiu não recuar: eles não tinham chegado tão longe na carreira e finalmente vencido nos Estados Unidos para voltar à Inglaterra em completo anticlímax, como se tudo o que ocorreu na turnê fosse apagado.

Corajosos, os quatro e mais seus empresários decidiram bancar as apresentações para mostrar que eles eram tão selvagens e audaciosos quanto qualquer líder de distúrbio social. E acabaram por realizar até então os seus mais importantes concertos de sua carreira de quatro anos – mais importantes do que a especial apresentação no Monterey festival, no ano anterior.

E é a visceral apresentação do Fillmore East de domingo, 6 de abril de 1968, que está no CD, em duas versões – a simples, sem a música “My Generation”, e a em CD duplo, com o segundo disco contendo uma versão monumental do maior sucesso do Who que dura 33 minutos, incluindo diversas citações a vários clássicos do blues e do rock.

Material não é inédito

Os concertos dos dias 5 e 6 já são amplamente conhecidos dos fãs e dos colecionadores graças a inúmeros piratas/bootlegs lançados durante todo esse tempo em CD, vinil, fitas cassetes e arquivos digitais.

Os tapes do dia 5 nunca tiveram boa qualidade, mas os do dia 6 foram gravados, nas melhores cópias, direto da mesa de som e mostram o Who ensandecido, endiabrado, com sangue nos olhos, como que contaminados pelos acontecimentos sociais e políticos dos Estados  Unidos daquele final de semana.

O grupo já vinha incrementando os shows desde o final de 1966, quando o minimalismo quase punk começou a dar lugar a um rock vigoroso calcado no blues mais pesado.

Capa do melhor bootleg do show do Fillmore East

É o tempo em que o material autoral de qualidade da banda começou a ser enxertado com canções clássicas do bllues americano, como “Fortune Teller”, “Shakin’ All Over”, “Young Man Blues”, “Baby, Don’t You Do It” e o superclássico roqueiro “Summertime Blues”, de Eddie Cochrane.

Townshend e Roger Daltrey, o voclaista, sempre disseram que o show do dia 5 foi melhor, mais pesado e mais dramático. O dia seguinte teve um que de ressaca, de saideira, de vontade de acabar logo para voltar a Londres, segundo o cantor.

Pelos áudios fragmentados disponíveis até hoje, não é possível fazer uma avaliação a respeito. O que se sabe é que o show de domingo, dia 6, é histórico, tendo recebido críticas entusiasmadas dos jornais grandes e também dos especializados.

Ok, o baú do Who deve estar quase zerado, mas é muito bom saber que existe a possibilidade de publicação de um show icônico da banda, daqueles capazes de mudar bandas de patamar, de impulsionar carreiras e de coroar um período de bons frutos, isso para não falar que serviu também de pontapé para uma nova fase, mais criativa e mais engajada.

“Live at Fillmore East – 6-04-1968” tem um valor histórico inestimável e certamente virá ao mercado com um tratamento moderníssimo de recuperação e masterização dignos da locomotiva criativa e exuberante que era o Who no período entre 1967 e 1974.

Assim como a edição do Led Zeppelin para “BBC Sessions” é o testemunho definitivo do poder que a banda tinha ao vivo, em gravações ao vivo de 1970 e 1971, o novo lançamento do Who certamente terá o mesmo impacto e importância, transformando-se no registro definitivo ao vivo do quarteto, ao lado dos fantásticos “Live at Leeds” e “Live at Hull”, ambos de 1970.

É esperar agora que a banda consiga recuperar o áudio de uma de suas melhores apresentações, o de San Francisco, em dezembro de 1971.

Fonte: UOL

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